quarta-feira, 31 de março de 2010

A Brutalidade do Brega, por Thiago Cardoso

Algumas horas atrás eu estava correndo no Parque da Cidade (apesar de ser negro, eu juro que era por esporte) quando passei por um senhor que aparentava uns 50 ou 60 anos, calvo, de bigode volumoso e uma barriga que denunciava uma boa quilometragem de degustação do sumo da cevada. Afim de ilustrar, ele guardava alguma semelhança com o saudoso Michael V. Gazzo, o sábio siciliano Frankie Pentageli de O Poderoso Chefão II.

Ele estava sentado num banquinho e usava um aparelho que me pareceu um mp3 ligado no viva voz. Da caixinha, um nada sóbrio Waldick Soriano declamava “Esta noite, eu queria que o mundo acabasse“.

Como a maior parte dos trauseuntes eu me ri da cena. Mas o motivo maior para o riso foi só uma constatação que eu já havia feito antes e compartilhei no Twitter: o brega é um estilo musical feito sob medidas brutas para os machos.

Eu digo isso por que ele é praticamente a cueca dos ritmos musicais. É feito por homens e para homens. A mulheres podem até compor e cantar, mas elas o farão para os homens. Engana-se quem acha que o brega não passa de um monólogo dor-de-cotovelo, chifre-pra-mais-de-metro como é o caso do Sertanejo. Saliento. Me amarro em Sertanejo. Não tem coisa melhor do que encher a cara chorando por causa de uns cornos ou pelas suspeitas de tais. Alias, como já disse um sábio uma vez: “O homem sem chifres é um animal indefeso.”

Mas voltando ao ponto, o brega tem um caráter revolucionário que é sutilmente mascarado pelo tom meloso e triste das canções. Ele fala de amor, mas não aquele amor estranho aos brazucas que é vomitado por Hollywood. É mais visceral, como nós somos:

“Se um amor nasceu de uma cerveja
Outra cerveja beberei para esquecer
Um amor que surge numa mesa
Entre espumas terá que terminar“. (Entre Espumas, de Roberto Müller)
O brega é aquele estilo de música que fala dos machos que não se envergonham de se apaixonar e sofrer pelos tipos marginalizados pela sociedade, como domésticas:

“Doméstica, tenho muito que te agradecer
Doméstica, o Brasil inteiro ama você” (Doméstica, de Tayrone Cigano)

Secretárias:

“Secretária, que trabalha o dia inteiro comigo,
Estou correndo um grande perigo,
De ir parar num tribunal,
Secretária, às vezes penso em falar contigo,
Mas tenho medo de ser confundido,
Por um assédio sexual” (Secretária, de Amado Batista)

E mesmo as putas:

“Eu vou tirar você desse lugar
eu vou levar você pra ficar comigo
e não me interessa o que os outros vão pensar” (Eu vou tirar você desse lugar, de Odair José)
Esse mesmo Odair José foi o herói que, numa época de liberação sexual feminina ousou confrontar um dos pilares do status quo feminil: o anticoncepcional.

“Pare de tomar a pílula, pare de tomar a pílula
Porque ela não deixa o nosso filho nascer.” (Pare de tomar a pílula, de Odair José).

E nesse momento de Projetos de Lei que criminalizam a homofobia (que é uma palavrinha pra lá de estranha. Homofobia seria o que? Medo dos gays? Pffffff), o Falcão, com a irreverência que lhe é peculiar, escracha:

“É preciso está sempre muito alerta
Pra entender a ética das altas rodas
Mas não é preciso ser nenhum Nostradamus
Pra saber que daqui a bem poucos anos
Quem não for viado não vai estar na moda” (A sociedade não pode viver sem as pessoas, de Falcão).

Enfim, mais e mais exemplos poderiam ser lançados aqui, o que poderia tornar o relato tedioso demais. Resumindo, se você achava que o Chico Buarque enfrentando a Ditadura com uns versinhos eufemizados era foda ou que o Rock de gente como, sei lá, o “messiânico” Humberto Gessinger era libertário, eu só tenho a dizer uma coisa companheiro: vai escutar o primeiro Reginaldo Rossi que você achar pela frente.